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COLETIVISMO E SUSTENTABILIDADE

por Marcelo Corazzi, da @basecolaborativa

Esse é um daqueles casos em que a definição da Wikipédia consegue ser simples e precisa: 

“Coletivismo é qualquer perspectiva filosófica, política, religiosa, econômica ou social que enfatiza a interdependência de todos os seres humanos.” 

O que entendemos, então, é que quando colocamos o foco na “interdependência dos seres humanos”, estamos falando de coletivismo. Mas o que isso tem a ver com sustentabilidade? Bom, precisamos dar um passo para trás. Tudo depende se, na sua visão, essa interdependência é ou não um fato/realidade. 

Em outras palavras, podemos dizer, com certeza, que os seres humanos dependem uns dos outros? Não é preciso muito estudo em sociologia para afirmar que sim, é senso comum que o ser humano é um ser social – que, parte do que se entende por ser um humano passa por se conectar com um outro humano de alguma forma.

Para mim, inclusive, o propósito de se estar vivo é diretamente relacionado a se conectar com as outras pessoas, sendo, a vida, apenas uma ferramenta para criarmos laços e vivenciarmos experiências significativas conosco, com o outro e com a natureza. Mas isso, como dito, é apenas minha opinião pessoal.

São muitos os argumentos que podemos dar para afirmar que a interdependência dos seres humanos é um fato. Por mais óbvio que seja, vou listar alguns desses argumentos, apenas porque entendo que seja absolutamente crucial para o nosso raciocínio que não exista a menor dúvida disso. Vamos pensar em apenas 2 aspectos: a sobrevivência (externo) e o emocional (interno).

Em relação à sobrevivência, vivemos em um mundo muito complexo, já não somos mais capazes de produzir por conta própria tudo aquilo que precisamos para viver. Na verdade, é bem provável que não sejamos capazes de produzir por conta nem ao menos 1% do que consumimos no nosso dia-a-dia.

Já pelo lado emocional: qual foi a última vez que você ficou sozinho? Por quanto tempo isso durou? Qual foi a última vez que você ficou 2 dias sem conversar com um único ser humano? A maioria absoluta das pessoas nem se quer passou ou passará por uma experiência assim.

 

Pare para pensar quanto do que fazemos nas nossas vidas é voltado para interagir com uma outra pessoa de um jeito especial.

 

Aqui, corremos o risco de pensar: “ah, mas então basta que eu tenha a minha família por perto e bem”. 

Sem desmerecer a importância da família, muito pelo contrário, o argumento

aqui é sobre a necessidade do outro, mas, é realmente possível viver uma vida de consciência tranquila sabendo que aqueles outros que não são seus amigos mais próximos ou familiares estão passando fome ou sofrendo?

Seja por um lado mais prático ou por um outro lado mais empático, é fácil ver que estamos nesse “barco” com mais gente e que dependemos dessas pessoas para viver e para sobreviver.

O que isso tem a ver com sustentabilidade, então? É mais fácil ver com um exemplo (que peguei emprestado de um curso de Teoria U do Otto Scherman): ninguém em sã consciência quer que o mundo acabe em um grande “lixão”, mas, por algum motivo, continuamos a perpetuar diversos comportamentos enquanto grupo que estão levando ao desgaste do planeta em velocidade maior do que ele pode se recompor e, por consequência, transformando o mundo em um “lixão”, pouco a pouco.

Por algum motivo, então, existem comportamentos que fazemos enquanto grupo, que são diferentes daquilo que esperaríamos de nós mesmos individualmente.

Quanto mais macro é a questão, maior o número de pessoas que precisa se envolver para causar impacto positivo ou negativo. Para resolvermos à questão do lixo em São Paulo, por exemplo, não bastam atitudes isoladas, mas é preciso um comportamento específico seja adotado pela coletividade. 

Veja, se apenas você passar a ter atitudes mais conscientes em relação ao lixo, é bem pouco provável que o futuro do planeta vá ser diferente de uma catástrofe, mas se todos passássemos a adotar comportamentos maios conscientes, o papo é bem diferente.

O que acontece, então, que faz ser tão difícil que esses comportamentos mais conscientes sejam adotados pela coletividade?

Podemos falar de diferentes “porquês” e abordar esse assunto de diferentes ângulos. Vou falar aqui de alguns que julgo serem importantes para que possamos pensar juntos no problema:

Primeiro ponto:

Vamos imaginar, que, dentro do sistema, existam interações mais e menos padronizadas. O que acontece quando alguém de dentro do sistema se comporta de uma maneira inesperada em relação a um comportamento padronizado?

Proponho um exercício de pensamento: quando dois seres humanos interagem, em condições normais de saúde física e mental, você espera que essa interação seja pacífica ou violenta? Sua resposta, 

acredito eu, vai depender do seu recorte de realidade, do lugar que você habita dentro do sistema: se ao seu redor ocorrem mais interações violentas do que pacíficas, é provável que você passe a esperar esse comportamento das interações humanas e vice-versa. 

A qualidade da resposta, se a interação seria violenta ou pacífica, não importa. O que importa é perceber que possuímos expectativas em relação às interações das pessoas dentro do sistema.

Vamos imaginar, então, que as expectativas de muitas pessoas coincidam e que, dentro desse padrão de expectativas exista um comportamento largamente esperado pela maioria dos membros do sistema. É de se esperar que a maioria das pessoas passe a repetir esse comportamento de novo e de novo, validando um padrão. 

Pergunto, novamente, então, o que acontece quando alguém se comporta fora da “expectativa geral dos membros do sistema”? Uma quebra de expectativa. Que por sua vez (vou dar um chute, veja se concorda comigo) faz com que a pessoa que vivenciou a quebra experimente qualquer coisa entre “estranhamento” e “frustração”, a depender do ponto de vista de cada um.

Seja estranhamento ou frustração, vou arriscar dizer que a reação natural à quebra de expectativa é sempre de distanciamento. É bem provável que, em muitos casos, essa quebra de expectativa seja vista em um segundo momento como uma coisa positiva, causando algo como um encantamento e aproximação. Mas isso. Mas isso acontece em um segundo momento, depois do susto da quebra. 

Esse raciocínio é apenas uma tentativa de mostrar que o natural não é aceitar o que é diferente. Como a mudança do coletivo envolve a adoção de uma coisa “diferente” pelos membros dessa coletividade, essa mudança precisa transpor a barreira/peneira/teste individual de cada um dos envolvidos. O comportamento novo, então, tem uma tendência de demorar para ser “normalizado”.

Segundo ponto: 

A escala do problema causa a ilusão de distância entre as pessoas e o problema. Lembra que dissemos que as atitudes isoladas de uma única pessoa dificilmente resolveriam a questão do lixo de uma grande cidade como São Paulo? O contrário é verdadeiro: o “mal” comportamento de apenas uma pessoa também não criaria ou perpetuaria o problema do lixo. 

É importante entendermos como o lixo de uma cidade é formado pelo conjunto dos lixos dos bairros, que por sua vez vem do conjunto dos lixos das casas, dos prédios e das pessoas que estão nas ruas e, antes disso, das famílias e pessoas que formam os grupos de trabalho. É um sistema composto por partes iguais – todos os seres humanos, e da solução quanto o outro.

Quanto maior o problema e mais gente envolvida, mais importante o engajamento de um número maior de pessoas para impactá-lo. 

Qual a consequência disso? Nossas atitudes parecem insignificantes e passa a ser frustrante e difícil ver os resultados dos nossos atos. Se somarmos a isso o fato de que esses resultados demoram para aparecer, não basta que mudemos o comportamento, mas que mantenhamos o novo padrão de comportamento por um tempo, o que maximiza essa frustração.

De um certo modo, as atitudes de uma pessoa parecem “desimportantes” para o problema, enquanto elas são cruciais, sendo que a pessoa é parte do problema e o problema afeta a ela diretamente.

Juntando os dois pontos, é difícil se comportar de uma maneira diferente, pois agir assim causa um distanciamento entre a pessoa que se comporta desse jeito novo e o resto das pessoas no sistema e se comportar de uma maneira diferente para causar um impacto em problemas globais é ainda mais difícil pois a “recompensa” pelo novo comportamento vem de maneira demorada.

E não depende só de você. 

Na verdade, essa é a parte chave: não depende só de você. 

Estamos falando de um dos problemas mais importantes da atualidade que é cuidar do meio ambiente e é óbvio e ululante que esse problema não se resolve sozinho – ou melhor, você não resolve sozinho. Fica fácil entender como sustentabilidade tem tudo a ver com o coletivismo. Parece até que é falar mais do mesmo. 

Mas, e então? Bom, não acredito que se ensina nada a ninguém, apenas que se facilita ou dificulta um aprendizado ou outro. Por isso, vou falar de mim e da lição que eu aprendi ao escrever esse texto. 

Percebi que lutar em prol de mudar questões globais pode ser muito frustrante. Por isso, dá próxima vez que eu ver alguém fazendo alguma coisa diferente por aí, ao invés de questionar e passar pelo meu “filtro de validação”, eu vou até ela e vou elogiar essa coragem do fundo do meu coração, afinal de contas, ela está tentando cuidar de alguma coisa que é minha também e, não tem jeito, eu dependo dela pra isso.

Marcelo vive em São Paulo e gosta de pessoas.
Se um dia o encontrar na rua, corre o risco de ele gostar de você. É facilitador de práticas de autoconhecimento, organizador de meditações em lugares improváveis e advogado no tempo que sobra.

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