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EMPREENDEDORISMO E SUSTENTABILIDADE

por João Pedro Rocha, do @espacocantodorio

Você conhece aquela cidade que tem um monumento sobre o topo de uma montanha? Ela é branca, com uma imagem da divindade, na crença cristã, de braços abertos. Nessa cidade também temos uma espécie de caixa sustentada por cabos de aço que transita entre duas montanhas. As praias de lá são lindas também, conhece?

Imagino que sim.

Agora, você conhece aquela cidade com a maior floresta urbana do mundo? Existem ainda algumas comunidades remanescentes quilombolas que resistem por lá. Eles produzem orgânicos, exercem sua tradicionalidade e vivem da terra. Têm também vários quintais produtivos e diversas trilhas com praias e cachoeiras quase que secretas. Reconhece essa cidade?

 

Se você imaginou duas cidades diferentes, se enganou.Estamos mesmo falando do Rio de Janeiro.

Sim, o Rio é uma cidade múltipla. Como muitas outras, mas por aqui uma imagem se sobrepõe a outras no imaginário coletivo. Você deve estar se perguntando: esse é mesmo um texto sobre empreendedorismo e sustentabilidade?
 

Fique tranquilo que você não leu o título errado. EMPREENDEDORISMO E SUSTENTABILIDADE É sobre como podemos empreender por aqui e como essa experiência nos apresenta diferentes caminhos.

Para falar sobre empreendedorismo e sustentabilidade vamos precisar percorrer alguns passos até nossa conclusão. Primeiro precisamos compreender o empreendedorismo pela visão do autor, depois algo mais sobre sustentabilidade e por fim, ou para começar, de onde esse autor fala. 

Definir de onde falamos é um passo fundamental para compreendermos que por aqui não sairão receitas de bolo, mas sim diferentes recheios a partir dos ingredientes propostos.

João é um jovem de quase 26 anos,  nascido e criado no bairro de Vargem  Grande, zona oeste do Rio de Janeiro. Na  biografia você saberá mais sobre sua  formação, mas aqui é sobre seu lugar.  Vargem Grande é um bairro cercado pelo  Maciço da Pedra Branca, a maior floresta  do mundo dentro de uma cidade. O bairro  está rodeado de verde, possui uma  grande relevância ambiental para a  cidade, mas também uma extensa  contribuição para a cultura do chamado  Sertão Carioca. Por aqui temos  comunidade remanescente quilombola, temos a ruralidade nos costumes e temos

muitos empreendedores.

Você costuma transformar ideias em oportunidades? Para muitos, esse é um bom conceito para empreendedorismo. Empreender é transformar. Seja a partir de um produto, um serviço, um espaço, uma empresa, um lugar, ou tudo junto.

João passa grande parte do seu tempo criando ideias. Tempo nunca faltou no transporte público. Como quando escreveu esse texto, o autor já chegou a gastar sete horas se deslocando entre sua casa e a escola. Não é bastante tempo para ideias? Hoje gasta pouco mais da metade entre casa e o trabalho. Não entraremos aqui no mérito da injustiça da segregação territorial e as dificuldades de acessar a cidade. Foquemos no tema proposto.

Neste processo diário de deslocamento imaginativo, aproveitou o tempo para observar. Ouvir. Conversar com o desconhecido. Refletir sozinho. Se podemos elencar alguns passos para começar a empreender, acima estão. São os primeiros para surgir boas ideias.

Observe o que acontece ao seu redor. Ouça atentamente o que o estão te falando, sejam pessoas, lugares ou o silêncio. Comunique-se, dê bom dia, embale numa conversa despretensiosa, entenda o ponto de vista e os questionamentos do outro. Aproveite para refletir sobre o que viu, ouviu e aprendeu. Tudo isso é insumo para novas e melhores ideias.

A próxima pergunta é como transformar essas ideias em oportunidades? E adiciono a essa pergunta uma palavra que muda tudo. Como transformá-las em oportunidades sustentáveis? 

 

Sobre a sustentabilidade. Você sabe o que é? Vamos para exemplos, pois assim facilita a compreensão sobre a visão do autor. 

Hoje, os agricultores remanescentes quilombolas do Quilombo Cafundá Astrogilda e os vizinhos do Rio da Prata produzem banana, caqui, aipim e diversas outras culturas. Seus modos de produção são (quase) os mesmos desde a época dos escravos. A floresta está ainda mais forte e sua produção contínua sustentando a comunidade. Prática hoje denominada como agrofloresta, o modelo do passado não prejudicou as condições presentes de reproduzir a atividade agroecológica, e não prejudicará as gerações futuras. Isso é sustentabilidade.

O que chamamos de conhecimento tradicional, é sustentável. Ele nunca precisou desse conceito para ser, mas é importante que seja compreendido assim, por todos.

Os artesãos do bairro produzem suas obras com materiais reciclados e inspirados na cultura local. Os restaurantes consomem alimentos dos agricultores, reduzem deslocamentos, emissões e incentivam a economia daqui. Os moradores, em sua maioria, se deslocam por meio da bicicleta e costumam usar ervas medicinais para tratar pequenos problemas. Seria esse um bairro sustentável?

Encontramos então uma oportunidade. Observar todo esse movimento e seu potencial nos levou a criar o Espaço Canto do Rio, um espaço de promoção do turismo comunitário e com propósito.

Por aqui, você se hospeda na casa do morador, a ideia é se sentir um local e experienciar essa outra cidade. Você pode conversar com os vizinhos, colher temperos diretamente da horta para sua refeição, conhecer nossas PANCs - Plantas Alimentícias não Convencionais (Taioba, orapronobis, bertália) e passear a cavalo ou de bicicleta pela região. A comunidade quilombola está acessível numa deliciosa caminhada pela floresta e todo conhecimento tradicional pode ser adquirido junto aos que se encontram pelos caminhos - cada caminho carrega em si uma história, e eles são sempre plurais.

O Canto do Rio também promove imersões e abre seu espaço para a construção social. Grupos e coletivos por aqui se reúnem e nossa possibilidade de uso está sempre em expansão. Juntos nos reunimos e fortalecemos as redes. É essa a contribuição social ao empreender. 

A imagem pintada da cidade do Rio pode se ampliar. Por aqui, empreendo para ampliar as opções dos que comigo vivem e com os vizinhos que constroem e resistem nesse processo. 

Sozinho eu não conseguiria proteger o bairro de Vargem Grande e suas belezas 

físicas e simbólicas.

O meu negócio a longo prazo poderia deixar de existir. Empreendo para que a rede de proteção aumente, e a cada dia as pessoas compreendam a importância desse local para a cidade. 

Neste bairro, se une a cada dia a gastronomia, o turismo, o artesanato, a agricultura em busca de uma cultura e uma economia fortalecida. 

Busco crescer, mas aqui o caminho não é sozinho. Subimos degraus mais lentos, todavia subimos juntos. Cada passo está estruturado. É assim que seremos sustentáveis. É assim que empreendo para (re)criar a cidade.

EXTRA: Você sonha com frequência? 

Uma vez perguntei a uma amiga também periférica se ela sonhava. A pergunta era óbvia, e imaginei que a resposta também seria. Para minha surpresa a dúvida veio seguida da negação.
O cotidiano dela de estudo, trabalho e deslocamento precário pela cidade, usurpava esse direito fundamental. Ela achava que não sobrava tempo para sonhar. Para empreender, você precisa sonhar. E mesmo que eu soubesse que aquela era uma empreendedora em potencial, o lugar dela na cidade tirava dela essa condição.

 

Eu vejo hoje com mais clareza a infinidade de empreendedores que deixamos de ter e ser. Se eu posso dar mais um conselho: PERMITA-SE SONHAR. Contra tudo e todos, faça. No ônibus cheio, no trem lotado, na fila da promoção do mercado. Crie fantasias, ideias, busque soluções para o problema cotidiano. 
 

Essa imagem mental vai te perseguir pela vida, de uma forma positiva, e quando você menos espera, acontecerá. O sonho vai se tornar realidade? Talvez não, mas ele vai te auxiliar a construir novos caminhos.

Se você já sonha, valorize e ajude outros a sonhar. E lembre-se sempre, o sucesso está no caminho, não na chegada. E ele será mais prazeroso se for em conjunto.

João Pedro é morador do bairro Vargem Grande no Rio de Janeiro, empreendedor, agricultor e promotor de mudanças comunitárias. Tem uma risada gostosa, difícil de colocar em palavras.
  Instagram: @espacocantodorio

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